Ler “Ensaio sobre a Lucidez“, do autor português José Saramago, me pareceu muito com o processo de acompanhar uma batida de carro em câmera lenta, do instante 0 até a devastação certa.
Lançado em 2004, o livro é uma continuação do aclamado “Ensaio sobre a Cegueira“, de 1995. Se na primeira obra Saramago trabalha a pergunta “o que ocorreria se todos perdessem a visão?”, aqui o autor parte de uma premissa igualmente simples e a leva às últimas consequências: e se quase todos fossem tomados por uma tremenda lucidez?
O livro abre no dia de eleição em uma cidade cujos moradores, quatro anos antes, haviam cegado. Nesse dia chove torrencialmente, e, fosse pela chuva ou não, a adesão ao processo eleitoral é ínfima; aqueles que comparecem, em sua grande maioria, votam em branco.
Diante do fracasso do primeiro dia de votação, é marcada uma nova data. Agora o próprio céu parece abençoar o momento: o dia amanhece ensolarado, sem nenhuma razão climática que justifique a ausência dos eleitores. Ainda assim, mesmo com o comparecimento, mais de 80% decide votar em branco novamente.
Essa brancura maciça dos votos incomoda o governo vigente, que não tarda a entender o gesto como traição e, necessariamente, como manifestação de uma articulação sombria e de prévias intenções. Quem estaria coordenando esse levante? Por que os moradores estariam traindo a pátria desse modo?
Para o leitor, já é possível sentir que estamos acompanhando uma batida de carro cinematográfica. O carro já tocou a parede, os faróis já não brilham mais, e toda a frente do veículo começa a se amassar drasticamente. Infelizmente, sabemos que não vai parar por aí, que existe toda uma cadeia de eventos ainda por vir. É nesse ponto que o livro também nos inquieta com a pergunta: até onde isso vai?

José Saramago (Foto: Divulgação)
O governo passa a sequestrar pessoas, interrogá-las, submetê-las ao polígrafo, privá-las de liberdade, e quanto menos respostas consegue, maior é a ânsia de buscá-las. É pela aflição de encontrar os porquês de um povo que não quer mais seus governantes que a trama se torna cada vez mais violenta. Ainda no início do livro, os governantes fecham a capital e se retiram dela, instaurando um estado de sítio e deixando, sem governo, aqueles que não os queriam mais.
Sobre isso, o psicanalista francês Charles Melman, em sua obra “Como Alguém se Torna Paranoico?”, pontua que a paranoia, quando manifesta em sujeitos neuróticos, se trata de um movimento de proteção do sujeito diante de algo que ameaçaria alterar uma certeza muito estruturante de sua personalidade. Diante da possibilidade de esse núcleo subjetivo se alterar, o sujeito se protege posicionando o outro como ameaça.
Saramago descreve os líderes de governo como pessoas eminentemente autoritárias, que operam justamente a partir dessa chave de medo do outro. Para eles, a população quer o mal deles, já que não os quer mais como governantes. Um traço importante disso é como rapidamente se cogita a existência de uma conspiração, de uma articulação de forças, de alguém com maior poder liderando a temida insurgência. Para esses líderes, presos à paranoia de que a população não poderia simplesmente não querê-los, é preciso que exista alguma força desconhecida manipulando de fato a cabeça da população.
Depois que o governo deixa a capital e instaura o estado de sítio, os cidadãos se veem sem forças policiais, com comida racionada, sem serviço de limpeza organizado pelo Estado, e ainda assim conseguem se gerir muito bem. Aqui fica nítido o quanto Saramago brinca com a ideia de que todos, enfim, se tornaram lúcidos.
Quando olhamos para a história da loucura, sobretudo tomando “História da Loucura”, de Michel Foucault, como lupa, verificamos facilmente que a ausência da razão, a ausência do sensato, foi por muito tempo a insígnia da loucura. Em outras palavras, o louco foi entendido, em diversas épocas, como aquele que é insensato, desarrazoado.
Em “Ensaio sobre a Cegueira”, as vistas das pessoas são tomadas por um branco leitoso e, dessa cegueira clara, o social mergulha na barbárie. Aqui, é pela onda de votos em branco que se manifesta o florescer da sensatez. Exceto para os governantes.
Quanto mais lúcida a população fica, quanto menos violenta se torna, quanto mais se organiza para o bem social, mais os governantes são tomados por essa loucura foucaultiana, movidos pela ânsia de destruir o objeto que, segundo eles, os rejeitou.
Jacques Lacan, outro grande psicanalista francês, em seu seminário “A Relação de Objeto”, explica que, quando alguém detém poder sobre outro ser, é mais fácil destruir esse ser do que pagar o preço narcísico de se separar, de ter que se dar conta, mais uma vez, de que não é tão tudo nem tão especial quanto imagina ser. Isso deflagra uma operação bastante perversa, na qual, diante da perda, o sujeito prefere aniquilar o outro a lidar com a falta, tal como vimos ocorrer ao longo da história humana, com tantos líderes que queimaram seu próprio povo.
Saramago parece bastante consciente dessa possibilidade de destruição. O século XXI mal havia começado, e, por meio dessa obra, ele já convida o leitor a discutir o autoritarismo como via de governo. Embora tenha falecido em 2010, anos antes dos governos atuais abertamente autoritários, é notável como a obra faz o leitor acompanhar a escalada de violência em regimes que outrora eram democráticos e que, pouco a pouco, encenam a própria falência, custe o que custar. Quase de modo preditivo, Saramago descrevia o que, em alguma medida, temos acompanhado nos Estados Unidos da América.

Cena do filme “Ensaio sobre a Cegueira” de 2008, adaptação do livro de Saramago que foi dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles (Foto: Divulgação)
Em muitos sentidos, a obra pode ser vista como um aceno às organizações sociais mais coletivas e horizontais, possibilidades de menos destruição em nome do favorecimento pessoal. Nessa linha, os protagonistas de “Ensaio sobre a Cegueira” retornam a partir da metade do livro, agora não narrando sua própria história, mas acompanhados pela lente de terceiros. O resgate desses personagens, que representavam tanto a união em oposição à barbárie destrutiva, não parece aleatório nem mero fanservice.
O livro evolui para um thriller eletrizante que pretende levar às últimas consequências a pergunta: até onde você iria por sua verdade? E para salvar alguém? E para salvar a si mesmo? Ao final da batida de carro, não resta nada, nem carro, nem passageiros, e essa radicalidade das últimas páginas dilacera qualquer fã de “Ensaio sobre a Cegueira”.
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