
A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo soube como poucos eventos se reformular, manter público, cativar os cinéfilos e se manter relevante em uma cidade extremamente lotada de uma agenda cultural dinâmica e recheada de boas coisas para se frequentar. Mas é justamente apostando no público enquanto entrega da melhor experiência possível e em uma dinâmica em que o boca-a-boca e grupos de fãs informais vão divulgando o evento que faz com que todo ano ele vá se tornando mais conhecido e frequentado.
Sendo um dos principais e mais importantes eventos cinéfilos do Brasil, a MostraSP conta com uma ótima equipe de organização, produção e de divulgação, para que a informação chegue no grande público, antes mesmo deste traçar seu próprio percurso de filmes, que é distribuído pelo grande circuito exibidor do evento, em espaços por toda a cidade de São Paulo, o que faz toda a diferença, além disso a programação consegue conciliar diferentes estratégias em um único evento que com certeza ajuda o público a fazer suas escolhas do que assistir em meio a um oceano de títulos.
Têm aquelas estreias em primeira mão dos filmes mais cotados para o circuito de premiação que já foi destaque nos grandes festivais que aconteceram ao longo do ano e que fazem a felicidade daqueles que querem maratonar o Oscar, têm aqueles filmes surpreendentes que só a Mostra consegue trazer pois joga luz a um cinema pouco comercial e que dificilmente vai chegar ao circuito exibidor brasileiro, têm aqueles filmes de diretores estreantes e que anos depois a gente descobre que foi Renata Almeida e companhia que lançaram no cinema Brasileiro, têm aquelas restaurações imperdíveis que dificilmente vamos ter chance de ver novamente em tela grande, sem falar nos eventos, parcerias, lançamentos que acontecem de forma paralela durante a MostraSP e que ajudam o evento a renovar público, patrocínios e relevância.
Neste período de profunda crise e preocupação com o futuro da cultura e dos nossos coletivos e comunidade, bem como dentro do contexto de uma das maiores instabilidades democráticas da nossa história recente, mas sabendo da sua resistência enquanto instituição que não cedeu nem a ditadura militar brasileira, essa relevância também se atualiza, quando mostra dentro da sua seleção de filmes, homenageados e escolhas de convidados um retrato do momento presente do mundo.
Se na sessão de coletiva de imprensa o filme exibido foi “O Outro Lado das Redes“, que inclusive já chega aos cinemas brasileiros neste 22 de Outubro e joga luz em todo o escândalo envolvendo o Instagram e a saúde mental dos jovens, junto a todo a ideologia por trás da programação dos algoritmos da Meta que encaminha os usuários para grupos de extrema direita, fazendo eles se radicalizarem enquanto discurso, a sessão de abertura no dia 14/10 contou com a exibição de “Tigre de Papel“, novo longa do grande e homenageado diretor estadunidense James Gray, que entre muitos assuntos retoma a disputa política e econômica inerente a guerra fria, e atualizando para os assuntos do tempo presente questiona: será que o monstro é tão perigoso e ameaçador assim? É possível vencê-lo? Ambos os filmes são extremamente necessários para o tempo presente, mesmo abordando temas tão distantes entre si, ou épocas tão diferentes, eles explicitam a cronologia de um tempo que é passado e presente, mas ao mesmo tempo joga luz em uma sociedade distópica e opressora.
Se a MostraSP nasceu como um espaço em que era o único lugar do Brasil em que o público podia votar, isso ainda se coloca fundamental nesse evento. Agora na segunda metade é graças ao voto do público que os jurados poderão escolher os seus destaques e premiados nas diferentes categorias, vale a pena ficar de olho nas fontes oficiais do evento para saber quais filmes terão novas sessões e quais poderão ser visto na semana de repescagem que começa assim que o evento termina, no dia 29/10, e se nesta semana está especialmente complicado para a gente conseguir pensar em algo que não seja eleição, pelo menos aqui no meio de tantos títulos políticos e um público apaixonado pela democracia, pela arte e pela cultura, talvez você consiga recuperar as forças para seguir adiante e achar a esperança que em algum lugar habita em você.
Sendo um evento de resistência, seguro e democrático, quero citar alguns filmes que ainda contarão com sessões nesta reta final, ou que chegarão em breve no cinemas e que talvez te ajude a pensar um pouco esse mundo doido em que estamos.
“Fjord” que é o ganhador da palma de ouro em Cannes este ano, e representante da Romênia no Oscar, é um daqueles filmes que causa arrepios na alma. Tencionando o convívio democrático ao máximo, o longa aborda a polarização política de nossos tempos, questionando o limite do estado em interver na estrutura social de uma família. É um dos longas que vem crescendo na temporada e dando o que falar, provavelmente vai aparecer em mais categorias do que apenas a de Melhor Filme Internacional.

E em um tempo que não toleramos mais a alteridade vale a pena ver esse filme, vai ter mais uma sessão no dia 26/10, ás 20:10, no Cinesesc, as vendas online já se encerraram, mas é possível comprar ingressos no dia da sessão, assim que a bilheteria abrir, depois disso provavelmente só vai ser possível ver o filme aqui no Brasil em Fevereiro.
Outro filme que aborda essa mesma tensão do mundo contemporâneo em escutar o discurso do diferente, é “A Terra do Meu Pai“. O novo longa do premiado diretor Paweł Pawlikowski inclusive já chega aos cinemas brasileiros agora dia 29 de Outubro e apesar de não ter novas sessões na MostraSP, vale a pena ficar de olho na próxima semana para ir aos cinemas e conhecer esse novo lançamento em parceria da Imovision e Mubi. O longa acompanha a família de Thomas Mann dentro do contexto geopolítico do fim da segunda guerra mundial, quando a União Soviética e os EUA tentam influenciar o mundo todo com suas ideologias e formas econômicas de administrar o mundo, ao mesmo tempo que acompanha o escritor e sua filha circulando em uma Alemanha em decadência após a morte de Adolf Hitler.
Com seus discursos e formas de enxergar e escrever sobre o mundo Thomas Mann é um sujeito convicto de que a palavra tem força de mudar a sociedade. Para ele a literatura, a arte e a cultura é uma das poucas molas propulsoras de transformação social e o filme aborda isso muito bem. Ao conseguir explorar as visões antagônicas e ao mostrar que o escritor conseguia circular, ser interpretado e referenciado em polos tão opostos do discurso, o diretor coloca em questão que não precisamos invalidar nossa posição ética diante do mundo para escutar o outro lado, em um período tão complexo esse filme parece dar pistas de como podemos encontrar uma nova saída diante da polarização no mundo presente.
Por último dois filmes que merece nossa atenção, primeiro “Minotauro“, o representante Francês no Oscar e que é dirigido por um dos maiores nomes do cinema contemporâneo, o russo Andrey Zvyagintsev. Com filmes que transformam conflitos familiares em reflexões sobre autoridade, desigualdade, religião e responsabilidade moral, ele consegue com esse novo longa mostrar novamente porque é uma das maiores vozes dessa geração.
A partir das micro relações de uma família que está em ruínas afetivas o filme vai em uma crescente tensão política e social, em que as narrativas se entrelaçam para mostrar uma sociedade que também está ruindo. A partir de fragmentos, vamos se dando conta que tudo que circula essas histórias e essas pessoas está aos pedaços e logo se damos conta que a guerra interna também diz respeito a guerra que acontece do lado de fora desta empresa, desta casa, desta família, assim o longa funciona como uma pesada metáfora sobre uma guerra em que todos na Europa e no mundo estão perdendo, inclusive aqueles que se dizem vencedores. O filme vai contar com mais duas sessões, uma no dia 24/10 no cine Belas Artes, às 21:15 e a última no dia 28/10 no Reserva Cultural, às 17:30, vale a pena ficar de olho, porque depois só será possível ver o filme por aqui lá por dezembro e é mais uma parceria da Imovision e da Mubi.
Por último quero citar o intrigante e conflituoso “A Margem do Rio“, filme nacional, ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Locarno e cinco prêmios no Festival do Rio esse ano. O longa que é o trabalho de estreia na direção de ambos os diretores, Matheus Farias e Enock Carvalho, aborda questões relacionadas ao fundamentalismo religioso diante de uma identidade cindida entre a repressão e o desejo, o conflito que nasce entre a experiência cotidiana de quem quer ser amado, mas se vê diante da imposição religiosa que quer controlar corpos e nossa forma de existir, um filme sobre pertencimento, que parte da narrativa queer para falar de um Brasil que não aceita aqueles que quebram a norma.

Filme distribuído pela Vitrine Filmes e com estreia programada para o dia 7 de janeiro é uma obra sobre a inquietação daqueles que ainda buscam conhecer o seu desejo, vale a pena também ser visto, o longa vai contar com sessões no dia 23/10, às 20:45 no Cinesystem Frei Caneca e no dia 24/10, às 20:30 no Reserva Cultural.
Assim, citei neste texto seis obras que estiveram na MostraSP, e que ou vão ainda contar com sessões nesta reta final, ou estrearão em breve no cinemas. Em comum os seis longas nos dão alguma pista do que é possível enxergar e interpretar por meio da arte nesse mundo que parece cada vez mais um lugar ruim para se estar.
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