Literatura

“Fantasmas do Presente”: a filosofia pós-Segunda Guerra Mundial e a busca por um novo tipo de esclarecimento

“Fantasmas do Presente – Os últimos anos da filosofia e o início de um novo iluminismo 1948-1984” – Wolfram Eilenberger

Lançado pela Editora Todavia em 2026, “Fantasmas do Presente – Os últimos anos da filosofia e o início de um novo iluminismo 1948-1984” é o novo livro do alemão Wolfram Eilenberger. Além de escritor, o autor é jornalista, professor e filósofo. Seus livros anteriores também foram publicados pela Todavia e seguem sempre o mesmo princípio: são compilados quatro intelectuais que definiram intelectualmente a época em que viveram.

Antes de “Fantasmas do Presente”, ele publicou “Tempo de Mágicos” e “Visionárias“. O primeiro trata da Europa nos anos 20, após a Primeira Guerra Mundial. Os mágicos do título se referem aos pensadores Walter Benjamin, Martin Heidegger, Ernst Cassirer e Ludwig Wittgenstein. “Visionárias” trata de quatro mulheres que marcaram época na filosofia, no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial: Simone de Beauvoir, Simone Weil, Hannah Arendt e Ayn Rand.

Neste sentido, este novo livro que acaba de chegar ao Brasil soa como uma continuação cronológica dos dois livros anteriores do autor. Vários dos filósofos tratados nos volumes anteriores serão citados em algum momento, porque influenciaram muito os pensadores posteriores.

Como sua biografia sugere, Wolfram é um divulgador científico que escreve com uma linguagem jornalística e acessível. O segredo do sucesso de suas obras é como ele interseciona uma descrição literária e, ao mesmo tempo, jornalística da vida desses pensadores com um didatismo acessível para explicar suas ideias filosóficas. 

Os pensadores tratados em “Fantasma do Presente” são Theodor W. Adorno (1903-1969), Michel Foucault (1926-1984), Susan Sontag (1933-2004) e Paul Feyerabend (1924-1994). O livro começa a partir do período de 1948, com o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota do nazifascismo.

O maior conflito entre países provocou estragos materiais gigantescos e impactou diretamente a vida de todas as pessoas do globo. Os intelectuais tinham um desafio enorme para absorver e refletir sobre a experiência traumática do nazismo e a descoberta de suas atrocidades. O fascismo havia sido completamente eliminado após a derrota do Eixo? Essa pergunta nortearia várias das reflexões dos personagens deste livro, que procurariam conexões do seu presente com o passado e buscariam ferramentas teóricas para pensar os novos tempos que estavam sendo construídos.

Há cinco capítulos no total, todos eles bem longos: “Esclarecimentos 1948-1950”, “Imanências – Limitações – 1957-1958”, “Teoria e prática – Distanciamentos – Maio de 1968”, “Radicalizado – Decisões – 1969” e “Saídas – Aprender a morrer – 1984”.

Capa de "Fantasmas do Presente" (Foto: Editora Todavia)
Capa de “Fantasmas do Presente” (Foto: Editora Todavia)

Por causa da perseguição nazista aos judeus, Adorno estava morando nos EUA, país que acolheu outros contemporâneos seus da Escola de Frankfurt, como Herbert Marcuse, Erich Fromm e Horkheimer. Após o fim da guerra, Adorno decide voltar ao seu país e lecionar novamente por lá. O livro abordará esse período de readaptação a seu país e a uma nova realidade. Adorno continuou sua produção teórica.

A história de Foucault neste livro começa com ele ainda como um estudante no interior da França, passa por sua vida como um professor universitário e pesquisador na Suécia, depois na Tunísia, para, no fim, voltar para a França na ebulição do Maio de 68.

Já Susan Sontag começa como uma estudante tentando se encontrar. Sua primeira apariçao no livro narra seu encontro, junto com seus colegas, de sua maior referência intelectual no período: o escritor alemão Thomas Mann. O leitor irá acompanhar os bastidores da produção de seus principais ensaios, como “Contra a Interpretação”, “Notas sobre Camp”, “Viagem a Hanói” e “A Doença Como Metáfora”.

Paul Feyerabend é um ex-soldado austríaco voltando do combate nas trincheiras da Segunda Guerra. Seu pensamento vai dialogar e depois entrar em conflito com quase tudo que ele toca: com a herança filosófica do Círculo de Viena, a filosofia de Wittgenstein, Karl Popper, e muito mais. Feyerabend passou por vários países diferentes, onde estudou e lecionou, como o Reino Unido, a Inglaterra e a França.

A maioria dos citados não se conhecia pessoalmente, mas era familiarizada de alguma maneira com o pensamento do outro. Inspirado pelo ensaio “Contra a interpretação” de Sontag, Feyerabend escreveu a obra “Contra o Método”. Em trechos do seu diário citados neste livro, Sontag cita a leitura de Foucault como referência e ponto de reflexão para textos posteriores. Adorno também era uma de suas referências intelectuais, apesar de sua admiração ser maior por Walter Benjamin.

“Fantasmas do Presente” é um livro denso: ele tem pouco menos de 500 páginas e condensa vários períodos históricos cheios de acontecimentos marcantes — tanto no campo filosófico quanto no político. O subtítulo do livro (“Os últimos anos da filosofia e o início de um novo Iluminismo”) e o título do primeiro capítulo (“Esclarecimentos”) indicam o recorte almejado pelo autor Wolfram Eilenberger.

Os quatro protagonistas desse livro, de uma forma ou de outra, dialogam criticamente com a herança do Iluminismo/Esclarecimento. Todos esses personagens também mantiveram uma postura crítica com o zeitgeist cultural em que estavam inseridos. Adorno foi um grande crítico da indústria cultural e do fascismo; Sontag produziu grandes reflexões sobre o poder da fotografia e o uso da linguagem (“A Doença Como Metáfora”); Foucault dissecou a origem da prisão e da loucura; Feyreband pregava uma revolução do modo filosófico do seu tempo. Estes são apenas alguns dos questionamentos de uma vida inteira dedicada à investigação filosófica e cultural do espírito do seu tempo.

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