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A atualidade de “They Live” (1988) de John Carpenter

Carpenter mira o consumismo e a alienação da sociedade norte-americana no seu clássico dos anos 80

“They Live” (1988) é um clássico filme do renomado realizador norte-americano John Carpenter, mais conhecido por suas produções de terror e ficção científica. A obra, que tem influência de diversos gêneros caros ao diretor (como os citados anteriormente), tem pouco mais de 1h30 de duração e, atualmente, está disponível na Netflix. A premissa do longa é simples: a Terra é dominada por alienígenas através de sinais de televisão transmitidos via satélite e a única maneira de identificá-los é pelo uso de um óculos escuro especial que poucas pessoas têm acesso.

Neste universo ficcional, as pessoas parecem hipnotizadas ou em estado de transe diante da TV. Elas tem um papel exclusivamente passivo em relação à esta tecnologia. Os espectadores chegam até a sentir um certo incômodo físico quando a programação, que é repleta de futilidades, consumismo e materialismo, é brevemente interrompida para dar lugar a uma mensagem crítica ao status quo. A mídia é meramente retratada como uma ferramenta de dominação e alienação dos outros.

Cena do filme “They Live” (Foto: Internet)

A trilha sonora de Carpenter — como em seus outros trabalhos — tem um papel narrativo e contextualizador muito importante para a trama. O público pode perceber desde o começo da história de que há algo inerentemente errado no universo que ele está prestes a conhecer.

A música é apresentada antes mesmo dos protagonistas, que são dois: Nada (Roddy Piper) e Frank (Keith David). John Nada (algo como ‘Zé Ninguém’ no Brasil) personifica o cidadão americano médio que idealiza a América supostamente gloriosa dos seus ancestrais e acaba penando até para encontrar um emprego em um canteiro de obras no subúrbio de Los Angeles. Seu companheiro de trabalho é Frank, um operário negro, que desde o começo da história, relata sua insatisfação com o sistema em que vive. Esse fato é ilustrado em uma das primeiras interações entre os personagens, em que o último desabafa sobre sua condição de vida precária e a dificuldade de viver longe de sua família que está em Detroit.

A sutileza do subtexto do contexto racial da América no roteiro é bastante valiosa para ilustrar a diferença de experiências de vida entre os dois personagens principais. Frank imagina que os aliens devem estar na Terra há bastante tempo, ao contrário do que Nada pensa, pois o chamado sonho americano sempre esteve distante pra ele.

Cena do filme “They Live” (Foto: Internet)

O ambiente político do final dos anos 80 no Ocidente foi dominado pelo chamado neoliberalismo de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. A última, inclusive, popularizou a frase: “Não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos.” Em “They Live“, John Carpenter ataca frontalmente esse tipo de discurso e ideologia que imperava entre os líderes do capitalismo global da época com uma obra que preza pela solidariedade, a confiança mútua no próximo, a importância da amizade e a necessidade da colaboração entre diferentes em mundo cada vez mais egoísta e indiferente ao destino alheio. Quer algo mais atual do que isto?

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