O Porto
O cineasta Aki Kaurismäki (“Folhas de Outono”, 2023) retoma o personagem protagonista de “A Vida Boêmia” (La Vie de Bohème, 1992), Marcel Marx (interpretado por André Wilms), que, no filme anterior, vivia à beira de uma vida precária ariscando-se como artista. Em “O Porto”, o personagem vive em uma cidade portuária francesa com sua esposa, Arletty (Kati Outinen), que cuida dos afazeres domésticos enquanto Marcel tenta a vida como engraxate, angariando míseros centavos por dia.
A trama tem início quando Arletty é internada em um hospital, acometida por uma doença aparentemente terminal, deixando Marcel desamparado. Sendo ele um homem bronco e pouco habituado a cuidar de si, agora terá que enfrentar a vida de maneira, a princípio, solitária.
Porém, durante sua jornada, Marcel terá companhia e precisará cumprir uma difícil, mas significativa tarefa: ele conhecerá Idrissa, uma criança refugiada do Gabão que, após ser descoberta pelas autoridades locais dentro de um contêiner que rumava para a Inglaterra — junto com outros refugiados —, consegue fugir, dando início a essa improvável parceria. Agora, longe dos olhos das autoridades, nosso querido Marcel Marx — que carrega esse sobrenome não por pura coincidência — oferece abrigo e alimento ao menino e, em paralelo, tenta compreender sua realidade e o ajuda a traçar um destino seguro. Os vizinhos de Marcel, ao tomarem ciência de que ele está abrigando o menino fugitivo, que agora estampa as páginas dos tabloides locais, compadecem-se como podem, gerando um grande senso de comunidade.
Nessa etapa da trama, o filme ganha uma dimensão ainda mais significativa e vem nos mostrar valores até então desfalecidos na sociedade moderna, contrapondo-se à realidade presente: a política migratória dos Estados Unidos durante o governo Trump e a atuação da polícia de imigração (ICE), bem como o próprio contexto histórico e sociopolítico da França, marcado por sucessivas ondas imigratórias e pelos conflitos em torno dessa integração. Kaurismäki nos fornece uma aula de solidariedade, escapando do moralismo e se valendo do que deveria ser nossa verdadeira essência como seres humanos.
Frente a uma sociedade corrompida por valores intolerantes, o filme, lançado em 2011, mostra-se mais atual do que nunca, evidenciando que mudamos pouco como sociedade, revelando a necessidade de uma transformação social e política radical, baseada no respeito, empatia e valorização das diferenças.
O cinema de Kaurismäki

Aki Kaurismäki é perito em retratar a classe trabalhadora finlandesa em seus filmes, algo com que facilmente nos identificamos enquanto brasileiros devido a toda a estética representada em cena. Seus personagens são, em grande parte, marginalizados e oprimidos pelo sistema capitalista e, consequentemente, levam uma vida desregrada, marcada pela boemia.
Na maioria das vezes, esses personagens tentam escapar das amarras impostas pelo trabalho e pelas condições sociais em que estão inseridos. Buscam melhores condições de vida e encontram refúgio naquilo que temos de mais valioso: a liberdade, o amor e a arte.
O tom tragicômico, muitas vezes extraído de personagens apáticos e de situações absurdas, se faz presente em grande parte de sua obra, se tornando peça fundamental e conferindo identidade e estilo como cineasta.
O diretor também é conhecido por manter uma relação de fidelidade com os atores com quem trabalhou, que frequentemente retornam em projetos futuros, assumindo novos personagens ou, como no caso de O Porto, revivendo personagens antigos. Alguns desses atores se tornaram figuras marcantes na cinematografia do diretor finlandês, como a atriz Kati Outinen (A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos, 1990) e o ator Matti Pellonpää (Shadows in Paradise, 1986).
Nos filmes, Kaurismäki nos mostra um outro lado da Europa, até então pouco conhecido pelo grande público e distante dos filmes, por exemplo, da Nouvelle Vague. Os cenários são compostos por subúrbios, apartamentos modestos, pubs e personagens socialmente relegados, criando uma atmosfera urbana marcada, principalmente, pela solidão e pela precariedade.
Por mais que o cinema dele fuja do convencional europeu, ainda nota-se grande influência bressoniana na composição das cenas: os planos detalhes em objetos específicos funcionam como elementos cênicos nas mãos dos personagens. Kaurismäki reproduz esse estilo de maneira muito original, visto que os elementos reforçam e ajudam a estruturar a persona de determinado personagem. São elementos que não saturam e que conferem uma assinatura própria à sua obra.
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