Música

Entrevista: O beatmaker SonoTWS fala sobre seu processo criativo e a cena do boom bap

O artista de Jundiaí comenta sobre a influência da música jamaicana em sua formação e seus próximos projetos

Arte feita pelos irmãos Skola

A Pista entrevistou o beatmaker SonoTWS, artista nascido em Jundiaí, município do interior de São Paulo. Conversamos com ele sobre a influência da música jamaicana em sua formação musical, seu processo criativo na hora de fazer um beat, suas principais referências, a importância do boom bap para a história do rap e seus próximos projetos que estão para chegar ainda em 2021.

Seu último trabalho foi o EP “Perfeitamente Incorreto Vol.1”, lançado em setembro do ano passado, com participações de MCs emergentes na cena em cada uma das faixas. No começo de 2020, ele também lançou o disco “Together” em parceria com o rapper gringo BadFX. Ambos foram lançados pelo seu próprio selo Tired Of People.

Os álbuns anteriores do produtor foram as ótimas beat tapes: “TWS” (2013), “Mocado” (2014), “Sentimentos” (2016), “Flores” (2016), “Street Talk” (2017) e “We Can Get Along” (2017).

A Pista: A primeira vez que ouvi falar de você foi no podcast do YouandMeOnAJamboree. Poderia contar um pouco para nossos leitores como foi sua experiência lá e qual a importância da música jamaicana na sua formação musical e na sua carreira como beatmaker?

SonoTWS: Eu conheci a música jamaicana (early reggae, rocksteady, ska) pesquisando samples. Ainda não produzia, mas gostava de buscar algumas músicas que dariam um bom beat, um sample maneiro. Aí numa dessas buscas conheci um grupo chamado The Hippy Boys, reggae instrumental de 1969 e muito diferente do que eu sabia sobre a música jamaicana, e foi aí que a busca não parou mais. Era uma época que estavam começando a surgir alguns blogs de música na internet e foi aí que fundei a You&MeOnAJamboree, pra conhecer pessoas que gostavam dessa mesma onda de som e ir compartilhando e aprendendo juntos.

A Y&M tem um papel importante na minha carreira musical, aprendi muito. Tocamos em muitos lugares, dos mais chiques ao sem infraestrutura alguma, no interior do Brasil ao internacional. Vários perreios, muito labba labba de contratantes. Tudo isso me deixou meio que calejado e esperto pra essa minha caminhada de hoje em dia como beatmaker/produtor. Apesar de umas presepadas digo que foi a fase mais divertida da minha vida.

Esse podcast “Invasão Jamaica” era lançado pela MTV, colávamos lá toda semana e falávamos sobre música jamaicana, eu, Alex Jurássico, Greg, Luiz e Pappa Neggo. Não ganhávamos um real, mas era uma infraestrutura da hora e era divertido pra gente também. Nessa época não tinha podcast como hoje em dia. Assisto hoje alguns e tenho várias lembranças desses momentos.

Junto com o Invasão Jamaica, também fazia o podcast de rap underground lá na MTV, chamava 2Deep. Mesma fita, não recebia nada e um dia cansei e deletei tudo. Era um trampo pesado, na Y&M ou nos podcasts a gente deixava tudo mastigado, tudo explicadinho, com link pra baixar, capa em alta das relíquias. Posso dizer que minha cota de caridade musical já foi (risos). Hoje mal compartilho o que estou escutando.

Capa de “Together”, álbum colaborativo de SonoTWS e BadFX. Arte feita por Elijah Anderson.

A Pista: Como é seu processo criativo para criar um beat? Tem algum passo-a-passo que você sempre toma antes de conceber uma música?

SonoTWS: Escuto música, boto um som pra rolar e já entro no mood. Hoje em dia não preciso muito de inspiração, se eu sentar lá e tentar fazer um beat vai sair, mas eu tento não forçar. Geralmente começo criando pela bateria na SP-1200, depois que ela tá do jeito que eu gosto, eu começo a escutar músicas pra ver se encaixo algum sample que sampleio na Akai S950. Basicamente é isso. É um processo lento mas é a parte mais divertida, a da criação.

A Pista: Inicialmente os seus trabalhos consistiam de beat tapes, mas os seus últimos projetos contaram com MCs rimando em cima das bases. O que motivou essa mudança? Ainda pretende soltar beat tapes ou agora sua identidade vai ser essa?

SonoTWS: Logo no começo como beatmaker, tive algumas experiências ruins com alguns MCs, foi aí que pensei: “foda-se, vou soltar só os instrumentais.” Por outro lado eu queria encontrar meu som, meu estilo, minha identidade sonora pra depois trabalhar com outras pessoas, que é o que faço hoje em dia. Sabe, aquele lance de “pô, esse beat é do Sono”. Como no graffiti, o estilo, a identidade é importante demais e cada um tem a sua. Tem amigo meu que se mudar a letra do graffiti, mudar tudo eu vou saber que foi ele quem fez.

Estou me divertindo trabalhando com MCs e aprendendo também essa parte da “voz”, de deixar o beat respirar. Não moldo meus beats para o estilo dos MCs. Se meu beat não pegou o coração ou fez tremer a caneta do MC é por que não é pra ele. Esse ano todos os projetos serão com MCs, mas ano que vem tem beat tape pra vocês.

https://tiredofpeople.co/album/perfeitamente-incorreto-vol-1

A Pista: Como você avalia o cenário da produção do boom bap hoje em dia? Pretende se arriscar por outros estilos de produção no futuro?

SonoTWS: O boom bap nunca parou, muito menos acabou. O que me deixa mais puto hoje em dia é ler artista falando “será que o boom bap vai voltar?”. Isso é coisa de quem tava surfando outras marola e aí deu ruim e tá procurando outra onda pra surfar. Quem gosta e quem pesquisa sabe muito bem como está o cenário. O boom bap é a fundação, sem ele tudo desmorona.

Se pretendo me arriscar por outros estilos de produção no futuro? Nunca. E pode deixar escrito aí, pode printar, o que for (risos).

A Pista: Quais são os produtores que você mais se inspira historicamente e atualmente?

SonoTWS: Kankick, Pete Rock, Lord Finesse, DJ Premier, J Dilla, Nick Wiz. Os da antiga são muitos. Os atuais eu me inspiro pelo meus amigos mesmo. Não vou citar nomes porque vou esquecer de vários. Mas me inspiro até pelos que estão começando e me mandam beats pra ouvir.

A Pista: O que planeja pra esse ano de 2021 em termos de lançamento?

SonoTWS: Tenho um lançamento com o MC Five Steez de Kingston (Jamaica). Meu primeiro vinil está chegando com vários MCs lendários aqui do Brasil rimando nos meus beats. Tem um EP com o Jotabê do Avante O Coletivo. Tem “Perfeitamente Incorreto Vol. 02”. Tem um álbum só com MCs internacionais chamado “Global Warming” e tem o meu grupo que to iniciando com um MC (pretendo me dedicar somente com o grupo e com as beat tapes no futuro).



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