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“Meu pai” e o Sacrifício Familiar

Com 6 indicações ao Oscar, o filme explora a solidão e a degradação mental na velhice

“Meu Pai” (The Father, 2021) é o primeiro longa do diretor e dramaturgo francês Florian Zeller. O filme é uma adaptação de sua premiada peça homônima, algo bastante evidente pela estética do gênero — como a presença de poucos personagens e o fato do filme se passar praticamente em um único lugar.

O filme foi indicado a 6 categorias no Oscar 2021 e levou 2 estatuetas para casa, sendo elas a de Melhor Roteiro Adaptado e de Melhor Ator para Anthony Hopkins, desbancando Chadwick Boseman (Pantera Negra, 2018) — que era o favorito para levar o prêmio postumamente por sua incrível atuação em “A Voz Suprema do Blues”.

“Meu Pai” oferece uma comovente visão interna da confusão mental causada pela demência (ou Alzheimer?) do personagem de Anthony Hopkins, Anthony: um idoso que se mostra irredutível as tentativas de sua filha Anne (Olivia Colman) de conseguir uma pessoa responsável pelos seus cuidados, desencadeando assim uma série de complicadas situações que desestruturam o vínculo familiar.

A proposta do filme se assemelha bastante com os filmes do diretor e roteirista, Charlie Kaufman —que podem ter servido de inspiração em sua estrutura na transfiguração de peça para filme — porém, em sua essência, é mais sóbrio, menos fantástico e simbólico que o diretor norte-americano.

Anthony Hopkins, agora vencedor de 2 Oscars, fez um brilhante trabalho — um dos melhores de sua carreira desde o assassino canibal Hannibal Lecter, papel pelo qual também levou uma estatueta— demonstrando a princípio, a excentricidade e a prepotência de seu personagem e logo em seguida outras camadas desconhecidas do público até então, como sua confusão e melancolia.

Olivia Colman indicada como Melhor Atriz Coadjuvante, nos apresenta em Anne um bom contraponto: seus sentimentos de preocupação e impotência, mostram uma tentativa de juntar os pedaços do próprio pai, que se deterioram com o tempo.

A montagem utilizada na transposição para a tela da desorientação de Anthony é bastante inteligente e criativa, oferecendo a perspectiva do personagem e elevando nossa compreensão e empatia pelo seu estado mental. Os elementos narrativos utilizados são os constantes e abruptos avanços temporais, o fato de mais de um ator interpretar o mesmo personagem — como se Anthony fosse incapaz de distinguir as pessoas de seu próprio convívio — além dos enquadramentos dos cômodos que são, na maioria das vezes, centralizados e bastante semelhantes uns aos outros, dificultando assim nossa tentativa de caracterizar os lugares. Todo esse conjunto é responsável por formar um intrincado quebra-cabeça que somos levados a montar.

“Meu Pai” exprime pinceladas de solidão e incapacidade durante a terceira idade, assim como Michael Haneke explora em “Amour” (2013), além de ser mais contundente que “Para Sempre Alice” (2014) ao retratar o esquecimento. Florian Zeller já possuí outro longa em produção denominado “The Son”. Não temos muita informação até o momento, mas depois do incrível sucesso de seu filme de estreia devemos esperar apenas coisas boas de seus próximos trabalhos.

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