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“Como Ler os Russos”: Um Guia Prático para os Iniciantes

Em seu novo livro, Irineu Franco Perpétuo tem a proposta de introduzir a literatura russa aos novos leitores, ao passo que apresenta informações relevantes da história e da cultura do país

Irineu Franco Perpétuo, 50 anos, é jornalista, escritor e tradutor brasileiro. Bastante conhecido nacionalmente por traduzir grandes obras clássicas do russo, como os livros de Vassili Grossman (Vida e Destino e A Estrada); O Mestre e Margarida (romance considerado a obra-prima de Mikhail Bulgákov); Memórias de um Caçador (1852) de Ivan Turguêniev e também o mais recente Anna Kariênina (1877) de Liev Tolstói pela Editora 34.

Foto: Marina Darmaros/Russia Beyond

Devido à sua consolidada carreira como tradutor dos russos e seu conhecimento acerca do pensamento crítico literário, Irineu nos apresenta seu novo trabalho, “Como ler os Russos”, lançado neste ano pela editora Todavia. No livro, Irineu dispõe de uma vasta bibliografia, de autores e professores brasileiros como Bruno Barreto Gomide, Aurora Fornoni Bernardini, Boris Schnaiderman; e escritores consagrados da crítica internacional, entre os quais se destacam: Vladimir Nabokov, Joseph Brodsky, George Steiner e Thomas Mann.

Irineu se propõe a traçar um panorama histórico cultural da Rússia e apresentar diversos escritores em seus devidos contextos, justificando assim estilos, posições sociais, políticas e afirmando o papel transgressor da literatura frente a censura da época, tanto na prosa quanto na poesia. O escritor aborda a introdução dos romances russos no Brasil; a era Púchkin e as modificações da língua russa no século XVIII; o tsarismo e os grandes romances de Tolstói e Dostoiévski; o início do stalinismo e a imposição do realismo socialista na literatura, entre outros temas.

Todos esses assuntos transformam o livro em um chamariz para novos leitores que buscam conhecer a dimensão histórica e a complexidade cultural da literatura russa — e também para o leitor já entendido, pois é possível ampliar o leque e conhecer outros escritores e escritoras que infelizmente ainda são pouco explorados pelo mercado editorial brasileiro.

A Pista conversou com Irineu Franco Perpétuo a respeito do livro, confira abaixo:

Entrevista

A Pista: Quais foram suas maiores dificuldades na organização do livro?

Irineu Perpétuo: A amplitude do tema. Não tive a pretensão nem de esgotar o assunto, nem de trazer nada de novo ou original. Busquei apenas tentar organizar a fortuna crítica da literatura russa de um modo que fizesse algum sentido para o leitor brasileiro.

A Pista: Você definiria seu livro como um guia para novos leitores da literatura russa? Quais seriam os atrativos para os leitores já familiarizados?

Irineu Perpétuo: Eu não sou acadêmico, sou jornalista, então acho que fiz algo assim, mais jornalístico, de prosa mais, digamos, ”acessível”. Pressupus que meu leitor teria interesse no tema, obviamente, mas não que tivesse conhecimento prévio ao seu respeito. Cabe a esse “novo leitor” dizer se o livro funciona como guia. Como cabe ao tal “leitor já familiarizado” dizer se um livro desses tem algum atrativo.

A Pista: Como foi sua introdução à literatura russa e como você iniciou no campo das traduções?

Irineu Perpétuo: Foi na adolescência. Eu leio muito, desde criança. Não me lembro da época em que não sabia ler. Reza a lenda familiar que eu teria me alfabetizado sozinho. Enfim, na minha avidez, fuçava coisas que havia na biblioteca de casa, e em algum momento caiu em minhas mãos uma edição de capa vermelha de Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski – de uma coleção da Editora Abril, se não me falha a memória. Eu tinha 14 anos, e não posso dizer que tenha entendido a obra naquela época. Mas fiquei bastante impactado, e a partir daí comecei a buscar os russos de forma mais sistemática. Um ou dois anos depois, fui estudar o idioma na União Cultural Brasil-URSS, e lá se vão mais de três décadas de relação com a língua. Em minha carreira de jornalista, fiz, muito de vez em quando, uma ou outra entrevista em russo, mas a coisa da tradução começou inesperadamente, e bem mais tarde. Era 2006, 250 aniversário de Mozart. Sou crítico de música, e o mito de um Mozart assassinado por um Salieri invejoso nasceu na Rússia, com Púchkin, 150 anos de ser transformado em filme no Ocidente. Comentei isso em uma mesa de bar, e uma amiga que era assessora de imprensa da Editora Globo recomendou-me que encaminhasse uma tradução de Mozart e Salieri (a peça de Púchkin que criou esse mito, em 1825). O resultado foi minha estreia na tradução literária com um volume com as quatro Pequenas Tragédias, de Púchkin – peças em um ato que incluem Mozart e Salieri.

A Pista: No livro você fala um pouco sobre as traduções indiretas (as famosas traduções do francês), que aliás foram as traduções às quais muitas pessoas tiveram acesso durante o advento da literatura russa no Brasil. Como você analisa essas traduções hoje em dia? Devem ser consideradas ou completamente ignoradas?

Irineu Perpétuo: Eu mesmo me iniciei na literatura russa com traduções indiretas, portanto não creio que elas devam ser simplesmente lançadas ao lixo. Se não fosse pelas traduções indiretas, nem estaríamos tendo essa conversa. Obviamente é muito saudável (e, arriscaria a dizer, irreversível) o hábito criado há 20 anos de traduzir tudo diretamente do original. Sigamos traduzindo de forma direta, mas sem querer fazer tabula rasa do que veio antes.

A Pista: Na sua concepção, em meio a tantos nomes de extrema relevância para história da língua e da literatura russa, por que Dostoiévski e Tolstói ainda são tão relevantes e difundidos no mercado editorial e entre o público brasileiro?

Irineu Perpétuo: Não se trata de uma idiossincrasia brasileira, mas sim de um fenômeno internacional. Tolstói e Dostoiévski eram os grandes nomes da literatura russa quando começou sua grande difusão internacional, no final do século XIX, e continuam se impondo mundialmente pela qualidade intrínseca de suas obras. O que não significa que a literatura russa se limite a eles, ou que não haja interessante antes nem depois deles. Pelo contrário: na Rússia, o grande nome, maior do que esses dois somados, é Púchkin.

A Pista: Você acredita que a censura do tsar no século XIX e de Stálin durante a União Soviética no começo do século XX ajudaram a moldar a identidade da literatura russa como conhecemos hoje? Você poderia falar um pouco da diferença entre esses dois regimes na literatura?

Irineu Perpétuo: A rigor, praticamente toda literatura russa que conhecemos foi produzida sob censura. Isso, obviamente, teve implicações estilísticas importantes, e acabou criando toda uma tradição de escrita “esopiana”, de autores escrevendo de forma a driblar a vigilância da censura – fosse ela a dos séculos de tsarismo, fosse a das décadas de bolchevismo.

Entrevista do autor pela editora Todavia.

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