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Atlanta: 3ª temporada é a mais radical da série

Os fantasmas do passado voltam para assombrar o presente na nova temporada de Atlanta

O premiado seriado Atlanta retorna após hiato de quatro anos

Depois de quatro anos desde o lançamento da segunda temporada, a terceira temporada de Atlanta finalmente chegou. O primeiro episódio da nova temporada estreou oficialmente no canal norte-americano AMC no dia 24 de março de 2022. No total, foram 10 episódios lançados semanalmente toda quinta-feira.

A inédita temporada de Atlanta, infelizmente, ainda não chegou em nenhuma plataforma de streaming ou canal no Brasil. Apesar disso, as duas primeiras temporadas do seriado estão disponíveis no catálogo da Netflix.

Atlanta, desde a sua criação, é uma série muito original tanto no quesito temático quanto formal. Donald Glover — ator, rapper, roteirista e comediante — criou o programa em 2016. A sinopse de Atlanta no site IMDB resume a série ao mundo de rap e aos personagens de Earn e Paper Boi. Nada mais distante da verdade. Para citar apenas alguns dos temas tratados na nova temporada: a ideia de branquitude, o conceito de negritude, reparações históricas, o falso “progressismo” branco, a conexão entre racismo e capitalismo e a indústria da moda.

Atlanta
Darius, Paper Boi, Earn e Van durante o episódio The Old Man and the Tree de Atlanta (Foto: Divulgação)

A terceira temporada de Atlanta: várias séries dentro de uma série

A terceira temporada é a mais radical do seriado até agora. Donald Glover resolveu tentar algo totalmente diferente das temporadas anteriores. Em quatro dos dez episódios desta temporada os personagens principais (Earn, Paper Boi, Darius e Van) não são o foco. É uma postura bem ousada esta de abdicar dos seus protagonistas, mas a aposta compensou muito no final. Os melhores episódios da temporada são justamente estes.

Atlanta, especialmente nesta nova temporada, parece várias séries dentro de uma só série. Esses episódios “soltos” podem até ser assistidos separadamente e funcionam quase como se fossem curtas. Foi este o caso dos episódios Three Slaps (primeiro episódio), The Big Payback (quarto episódio), Trini 2 De Bone (sétimo episódio) e Rich Wigga Poor Wigga (nono episódio).

Three Slaps“, o primeiro episódio da temporada, dita o tom e o caminho que a série seguirá. Inspirado livremente em fatos reais, o espectador acompanha alguns dia na vida de Loquareeous — um garoto negro com problemas disciplinares na escola. O conselho tutelar acaba tirando o menino da casa em que ele vivia junto com sua mãe e seu avô. O jovem acaba sendo mandado para um lar adotivo comandado por um casal de duas mulheres brancas lésbicas que já “cuidam” de outros filhos adotivos negros. Quase todo esse segmento é uma crítica a um falso progressismo branco que é incapaz de enxergar seu próprio privilégio e acaba sendo parte do próprio problema que julga combater. Todo episódio parece uma fábula distópica de terror psicológico moderno.

Atlanta e os fantasmas do passado

Os fantasmas do passado são o tema principal dessa terceira temporada de Atlanta. Há referências a fantasmas em quase todos os episódios. O primeiro episódio se inicia com uma sequência de dois amigos — um homem branco e um homem negro — conversando enquanto pescam em um lago. O branco conta ao amigo que existem fantasmas das gerações passadas naquele lugar. O local era uma cidade negra auto-organizada e foi destruído pelos brancos da época. Essa sequência também parece referenciar a um episódio da ótima e recente série Watchmen sobre a Wall Street negra — o local foi destruído pelos moradores brancos das regiões próximas — uma história verídica.

No episódio três há uma descrição de um fantasma negro em um diálogo entre Fernando e Paper Boi, além disso Earn vê uma pessoa negra em uma foto antiga que remete a um fantasma. No episódio quatro as pessoas brancas com familiares descendentes de proprietários de escravos são condenadas a restituir as pessoas que sua família escravizou no passado. É como se fosse o passado — o fantasma da escravidão neste caso — voltando para cobrar e assombrar o presente.

Em Trini 2 de Bone, sétimo episódio da terceira temporada, nós acompanhamos a vida de uma família branca nova-iorquina progressista tradicional. Um homem, uma mulher e um filho pequeno. Todos brancos. Silvia é a babá que cuida de Bash, o filho do casal. A audiência nunca conhece Silvia em vida. Ela morreu recentemente, mas é como se o fantasma dela ainda estivesse ali para lembrar aquela família branca da sua negligência com seu filho. Novamente o episódio remete a um fantasma que assombra aquela família com sua presença. Silvia foi mais presente na criação de Bash do que os próprios pais biológicos. Ela exerce sua influência no menino mesmo depois de morta. A cena final é emblemática neste sentido. O olhar de Silvia, em uma fotografia junto com Bash, parece julgar e desafiar aqueles dois pais.

Conclusão

Talvez o único ponto negativo desta temporada seja a falta de desenvolvimento de Darius como personagem. Acaba sendo uma das consequências naturais de ter tantos episódios sem a participação dos personagens principais. Vivido pelo ótimo ator Lakeith Stanfield, Darius funciona apenas como um alívio cômico para a história desde o começo da série. É claro que ele continua engraçado em várias de suas participações, mas dramaticamente parece que involuiu em relação aos outros personagens. Todos os outros ganharam mais camadas pra si. No episódio White Fashion, o sexto da terceira temporada, acompanhamos Darius por alguns momentos durante uma visita a um restaurante nigeriano. A audiência é lembrada de sua origem nigeriana, mas a sub-trama é logo abandonada e não tem um desenvolvimento mais aprofundado.

A quarta temporada, que será a última de Atlanta, chegará ainda em 2022. Ela foi gravada simultaneamente com a terceira e também se passará parcialmente na Europa, mas também em Atlanta. São ótimos tempos para a televisão em geral. Outras séries contemporâneas que também atingiram uma maturidade maior em sua terceira temporada, assim como Atlanta, foram as ótimas Barry (Disponível na HBO Max) e Master of None (Disponível na Netflix). Isso prova que os canais e os showrunners podem aprender um pouco com Atlanta e decidirem se arriscar mais. Não há nada a perder. Certamente existe um público sedento por outro tipo de arte, como a criação de Donald Glover nos mostra.

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