Sociedade

Hopi Hari: 20 anos do maior Halloween da América Latina

Depois de quase decretar a falência em 2017 e ter sua operação fortemente impactada pela pandemia, assim como toda a indústria do entretenimento, o parque busca agora novamente se consagrar com um grande evento de Halloween, mas peca e muito na organização

Digno de Halloween

A história do parque é digna de um filme de terror, com uma ascensão que vislumbrava ser equiparado ao universo da Disney, em Orlando, mas posicionado estrategicamente entre São Paulo e Campinas para tentar atrair parte dos 300 mil brasileiros que viajavam todos os anos do Brasil – partindo principalmente do estado de São Paulo – para os Estados Unidos, o Hopi Hari nunca chegou a corresponder às expectativas de seus fundadores.

O parque foi vendido antes mesmo de ser inaugurado. O grupo, que também era responsável pelo PlayCenter, outro parque temático que nos anos 90 era sucesso de público, começou a ficar atolado em dívidas e com muitos problemas financeiros teve que se livrar do novo empreendimento. O parque teve um custo de 200 milhões de dólares na época e prometia retorno financeiro rápido para os novos investidores.

O retorno financeiro não se concretizou conforme o esperado, pois os gastos não eram correspondentes aos ganhos, sendo que só a partir de 2008 o parque chegou a alcançar o número de 2 milhões de visitantes, número esse que era comum ser atingindo pelo PlayCenter.

Em uma das tentativas de alcançar o sucesso do antigo parque, a nova administração do Hopi Hari resolveu fazer investimentos massivos em eventos e atrair parcerias que pudessem patrocinar ações e áreas do empreendimento; assim um dos principais eventos que logo de cara se destacou, e ajudou o parque a sobreviver um pouco em meio ao caos financeiro que o começava a afundar, foi o Halloween.

Foto: Divulgação da Hora do Horror de 2007 do Hopi Hari

O Halloween do Hopi Hari ganhou o nome de “Hora do Horror” e trata-se de um evento que ocorre entre os meses de Setembro e Novembro, ou seja, fica em atividade durante todo o mês de Outubro, o mês do terror.

O evento acontece anualmente desde do ano 2002, com temas, personagens, histórias e ambientes específicos. Com uma rica e caprichada produção, de por medo até no mais corajoso e desde desse início o Halloween do Hopi Hari conquistou o público amante das histórias de terror, fazendo com que ano após ano o público visitante do parque aumentasse. Mas, assim como em uma reviravolta de filme de terror às coisas começaram a dar errado a partir de 2007.

Em 2007 o parque estava com o Halloween dentro da temática do pesadelo, das fobias, das alucinações, do sonho; as diferentes áreas do parque, ao começo da noite, ganhavam vida misturada a Hora do Horror que pode ser o ato de dormir e em túneis com muitos sustos, efeitos especiais e monstros os visitantes dos parques podiam reconhecer suas próprias angústias de não se sentir seguros nem mesmo na cama de casa.

´Vídeo: arquivo particular, percurso de 1km Hora do Horror 2021

No entanto, foi neste evento, de 2007, que teve o primeiro acontecimento que começaria ruir a confiança do parque, a morte do estudante Arthur Wolf, de 15 anos, por choque anafilático, apesar de aparentar não ter relação direta com a atração do parque, abalou um pouco os procedimentos de segurança e confiança do Hopi Hari.

O que em 2012, agora sem relação com o evento de Halloween, ruiu de vez. Em Fevereiro daquele ano a adolescente Gabriella Nichimura, de 14 anos, caiu de uma altura de 20 metros, de uma das cadeiras do brinquedo  La Tour Eiffel – brinquedo este até agora, 2021, inativo – , após isso o parque começou enfrentar diversos problemas, que inclusive, devido a perícias técnicas, acarretou no fechamento do parque.

Atolado em dívidas após indenizações, processos trabalhistas, aluguéis atrasados e juros de empréstimos, o parque abriu um processo de recuperação judicial junto a credores e quase declarou falência, mas em 2017 foi revendido para José Luiz Abdalla Filho, magnata, investidor privado da bolsa de valores do Brasil.

O Halloween de 2018, 2019 e 2020

A compra do Hopi Hari surtiu efeito imediato; com investimentos pesados na recuperação da estrutura, na restauração e manutenção das atrações, auditoria fiscal e mudanças em toda a gestão, colaboraram para que o parque começasse novamente a receber visitantes e esgotar ingressos.

Não foi diferente com os eventos de Halloween de 2018 e 2019, com um grande investimento por parte da nova direção comandada por Abdalha, a Hora do Horror desses dois anos foi sucesso de público e recebeu muitos elogios por parte dos amantes de terror.

Em 2018 o tema foi “Sacrificium – Você será parte do Ritual” em que o Hopi Hari apostou em grandes efeitos especiais e em uma grandiosa produção baseada em histórias da Inquisição, em que um grupo de poderosas bruxas são condenadas a fogueira e depois a comunidade sofre com a peste negra e diversas maldições.

Em 2019, seguindo a recuperação do parque, um evento ainda maior. Apostando na temática bíblica do apocalipse, o Halloween desse ano trouxe ao parque o anticristo e seus quatro cavaleiros do apocalipse: a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte. O evento contou com um percurso de 1km que simulava uma cidade apocalíptica cheia de zumbis e que para fugir era necessário entrar em um Boing,

Mas em 2020, novo problema, a COVID-19 e a consequente declaração de pandemia, causa em março daquele ano, novo fechamento do parque, que vinha tentando se recuperar. Mesmo tendo suas receitas afetadas, manteve uma política de demissão zero e preparou no final do ano, para os fãs de terror, o incrível “Horror Drive Tour”.

O visitante, de dentro do carro, ia seguindo pelo percurso de um cenário de estúdio de cinema abandonado; no escuro com muitos sustos e cenas de tirar o fôlego os participantes foram transportados para dentro de um cenário de filme de terror, inclusive com sintonização de rádio própria para o percurso, mas é claro que isso não foi o suficiente para recuperar o prejuízo causado pelo fechamento do parque e que agora parece influenciar diretamente na reabertura.

O Halloween de 2021

O parque reabriu, de forma definitiva, no começo de 2021 e alega estar funcionando com capacidade reduzida de público. No entanto, muito impactado pela falta de receitas para garantir a sequência do plano de recuperação judicial, iniciado ainda em 2017 e que contém dividas negociadas na casa de 300 milhões de reais, o parque parece estar investindo todas as fichas nessa reabertura gradual e aparentemente está inflando a capacidade de poder receber público, mesmo com as restrições.

Influenciado pelos eventos anteriores e pela temática deste ano, Hora do Horror 20 anos: Déjàvu, a Pista resolveu visitar a atração no dia 19/09 e apesar de realmente constatar que se trata de um grande evento, que pode valer a experiência para quem é fã de terror e frequentador assíduo de outras edições do Halloween produzido por lá, a experiência foi no mínimo desagradável, o que é facilmente verificado em diversas reclamações e comentários, seja no site reclame aqui, ou nas próprias redes sociais do parque.

Chegamos no parque antes dele abrir, era por volta de 10h, a fila estava enorme, sem organização e com funcionários orientando só no começo da fila, do meio para o final, teve vários problemas inclusive com pessoas furando fila e sendo vaiadas, já ali percebemos que não seria um dia nada fácil.

O parque já tem autorização para trabalhar com 100% da capacidade de público, diz ter reduzido a capacidade para 60% para garantir bom funcionamento do parque e dos protocolos de segurança contra a COVID-19; essa porcentagem de acordo com o próprio parque seria o equivalente à cerca de 15 mil pessoas.

No entanto, ou a capacidade de atendimento e operação do parque está totalmente equivocada e o número está sendo inflacionado para poder vender mais ingressos, ou tinha muito mais gente que os 15 mil ingressos que alegam que foram disponibilizados no dia para a venda. Todas as atrações do parque tinham filas de mais de 2h no mínimo, sendo que nas principais atrações as filas passavam de 3h; muita aglomeração, poucos funcionários, muita falta de organização e informação também foram percebidas de forma recorrente durante o dia.

Com um sol e calor que passaram dos 30°C foi comum ver muita gente passando mal, desmaiando e sendo socorrida pelos bombeiros do parque. Devido a pandemia todos os bebedouros do parque foram retirados e para comprar uma água, acredite se quiser, nas 5 vezes que fizemos isso durante o dia, pegamos uma fila de no mínimo 30 min.

Ou seja, recomendamos que se caso quiser aproveitar de verdade o Hopi Hari nesse momento de reabertura, deve priorizar ir na sexta-feira, porque finais de semana e feriados o parque está extremamente lotado e lidando muito mal com a pandemia, nenhum dos ditos protocolos funcionam lá dentro, tampouco há álcool em gel sendo distribuído e nem o comprovante de vacina solicitaram na entrada, então é importante lembrar que a pandemia ainda não acabou; o editor responsável por essa aventura foi ciente disso e com as duas doses da vacina tomada.

Mas fora essa odisseia, que realmente foi bem desgastante, no início da noite, às 18h30 é aberto o percurso do terror, um caminho que esse ano é aberto e contém 1km, relembra os 20 anos de Halloween do parque.

Foto: projeto do caminho que relembra os 20 anos da Hora do Horror do Hopi Hari

O percurso conta uma narrativa de tempos primórdios em que um camponês sobreviveu a um incêndio depois de ver uma criatura mitológica e híbrida, que hora atua como ceifador de almas e hora como um justiceiro divino, o Vidutus.

Dentro do universo de Déjàvu os Vidutus são responsáveis por se infiltrar na mente das pessoas, confundir passado e presente e tornar os visitantes do parque um eterno prisioneiro das lembranças dos 20 anos de horror que se passaram em Hopi Hari.

O diretor criativo do parque, Rogério Barbatti, afirma que os Vidutus são como guias que faz retornar na forma de pesadelos e sensações Déjàvu todos os monstros, criaturas e histórias que aterrorizaram o passado recente do País mais divertido do mundo e que agora se torna o País mais assustador do mundo – seja para quem teme os monstros dos 2O anos da Hora do Horror, ou o maldito vírus que já atrapalha a nossa vida a 2 anos.

Siga-nos nas redes sociais (FacebookTwitter e Instagram) fique por dentro das nossas matérias sobre cinema, literatura, música e sociedade!

Leia também:

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está chegando

Almodóvar: 5 filmes para conhecer o diretor

Camus: muito além de “A Peste”

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: