Cinema

“Armugan” e o silêncio que grita — 45ª Mostra Internacional de Cinema

Em uma carregada fotografia em preto e branco, em que o silêncio e o cenário atuam como personagens, "Armugan" é uma grata surpresa em tempos em que quase todos tememos a morte

O diretor de “Armugan” vem se destacando como um nome de peso do cinema espanhol, este que já presenteou os amantes de cinema com nomes como Pedro Almodóvar, Luis Buñuel e Carlos Saura, entre outros, coloca em evidência agora esse multi-talentoso Jo Sol, a quem certamente ainda vamos muito ouvir falar.

Ele já havia ganhado certo destaque anteriormente com “El Taxista Ful (2005) e “Viver e Outras Ficções” (2016) que lhe renderam prêmios nos festivais de San Sebastián e Queer Lisboa, respectivamente. Sua filmografia toca em questões sensíveis e de apelo social, como o peso da vida e a consequente morte, a solidão, a dissonância com o capitalismo e o tempo que nos é roubado.

Seus filmes são um misto de documentário e ficção; realidade e metáfora às questões que nos são tão caras nos dias de hoje e assim como Bergman, – o diretor sueco que imortalizou a morte como algo inerente e protagonista de nossas vidas em “O Sétimo Selo” (1956) – Jo Sol, trabalha em “Armugan” (2020) com o minimalismo, amplos planos sequências em que a natureza, o tempo e o silêncio também são personagens.

Cabe ali, em um plano fixo que acompanha, ora uma dúzia de ovelhas, ora o caminhar e a contemplação da montanha das costas de Anchel, por parte de Armugan – protagonista homônimo do filme –  a incontável incerteza da vida e a imprevisibilidade da morte, bem como todos os seus questionamentos.

Anchel, um cuidador que trabalha na unidade de cuidados paliativos de um hospital, se torna uma espécie de gôndola que carrega o parceiro, que é paralítico, em seus afazeres de “finalizador da vida”. Armugan, é assim um “Caronte” do mundo moderno, um guia responsável por levar aqueles que partem, à outro plano de existência com tranquilidade. Ambos são testemunhas da morte, mas enquanto o primeiro enxerga a vida como algo que pesa em nossos corpos, o segundo vê a morte como a noite e que esta nada mais é do que um dia derrotado e nada pode acabar com um novo dia que chega, se não já não é morte.

Trailer: “Armugan

A fotografia e a montagem de “Armugan” são primorosas e de raro talento no cinema, Daniel Vergara e Afra Rigamonti, respectivamente, fazem junto à Jo Sol um trabalho que engradece e completa o filme. A câmera que acompanha de forma sutil e doce, focada nos olhares inquietantes e bocas silenciosas dos dois protagonistas, contrasta com a câmera que que em amplas tomadas abertas escuta e comtempla, ora o casco de uma ovelha bater ao chão quando uma mosca teima em pousar sobre a lã, ora o vento que bate na árvore seca castigada pelo inverno ou o tilintar dos sinos que acompanha os ovinos.

Assim a mixagem de som e a imagem se completam como em uma linguagem universal, em que a trilha sonora de Juanjo Javierre, compõe esses elementos que a câmera ajuda a dar vida e funciona como uma “cereja do bolo” em um filme em que o silêncio também é protagonista e coautor da narrativa.

Armugan e Anchel não precisam dizer muito e mesmo nos momentos em que esse silêncio se torna irritante, como quando nos questionamos à cerca da morte, do além da vida, o peso de acordar amanhã, percebemos na verdade, assim como a constatação de Armugan, de que para muitos a vida é como um rio que se transforma em névoa, aos poucos ela vai se evaporando, e quando finalmente se damos conta disso talvez não reste mesmo muito o que se pensar e falar sobre o anseio de se esperar ou temer a morte.

Foto: Pôster de divulgação

Armugan” não tem necessariamente uma história linear e nem é preciso, a abstração do tempo, a dilatação do espaço se misturam aos pensamentos dos personagens em que a imagem fala muito mais que palavras, a atmosfera de sombra e morte é um rico retrato da vida e o valor de que ela pode ter para alguns, ainda mais quando se tem um dom como o de Armugan.

O filme é como um passeio profundamente sensorial e existencialista em que o silêncio é como algo que grita e em tempos em que todos tememos a morte de forma significativa nos últimos meses, isso é de um simbolismo gigante.

Filme visto na 45ª Mostra Internacional de Cinema.

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