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“Hit the Road” e a possibilidade de sonhar – 45ª Mostra Internacional de Cinema

Todos os anos milhões de pessoas, no mundo todo, imigram de um país à outro por diversos motivos, mas todos tem uma coisa em comum: a possibilidade e a necessidade de sonhar com o amanhã. Hit the Road é um pouco disso e também é um pouco autobiográfico, é sobre um país que expulsa seus filhos

Hit the Road ” é autobiográfico?

Ao fim de 2018, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), 70,8 milhões de pessoas no mundo foram obrigadas a deixar suas casas; nesse número é considerado pessoas que deixaram para trás suas residências para fugir de perseguições, violências, conflitos e violações de direitos humanos.

Esses números são inflacionados, em grande parte, devido aos extensos conflitos que ainda ocorrem em partes do Oriente Médio, mas também é influenciado por governos autoritários e ditatoriais que ainda governam em todo o mundo.

Em “Hit the Road” (Pegando a estrada), Panah Panahi poderia ter sido muito mais político do que foi, mas levando em conta os dois primeiros parágrafos deste artigo, bem como sua própria história pessoal, percebemos como deve ser difícil construir uma história em um país em que a sua liberdade pode ser castrada a todo momento.

Panah Panahi, diretor de “Pegando a estrada“, é filho de um dos mais aclamados diretores do rico e instigante cinema iraniano, Javar Panahi; sobre a influência de seu pai em sua carreira, Panah fez a seguinte declaração em Cannes, onde o filme foi exibido na mostra paralela Quinzena dos Realizadores:

Não sei se exatamente aprendi com ele, mas o que é evidente é que existem muitas coisas em seu trabalho que me fazem questionar se as consigo fazer. Não é de todo uma conversa, em que falamos das coisas, mas que por observação em seus sets de filmagens, onde frequentemente fico muito impressionado com ele, é que aprendo, vejo a sua gestão de problemas, ele é extremamente paciente e isso impressiona-me muito e ensina-me bastante sem serem necessárias palavras. A pressão seguiu-me a vida toda e sempre tentei pensar em como criar uma identidade própria, independente do fato de ser filho de quem sou e isso pode ser visto neste meu primeiro filme.

Javar Panahi é conhecido no mundo todo por sua forte atuação e crítica ao governo iraniano, em 2010 ele chegou a ser preso, condenado a seis anos de prisão, 20 anos sem poder fazer novos filmes e foi proibido de deixar o país; em seus filmes ele sempre se posicionou contra o autoritarismo e o cerceamento da liberdade de opinião e expressão artística, o que sempre foi muito marcado em sua carreira com roteiros ácidos e fortes críticas sociais ao sistema político iraniano.

O diretor é um dos poucos, da área de cinema, que resolveu ficar no país e que tenta resistir à censura imposta pelo governo do Irã e até o momento Panah, seu filho, parece seguir o mesmo caminho. Esse seu primeiro longa “Hit the Road“, se mostra como uma linda homenagem, mas politicamente contida, à todos aqueles que um momento tiveram que deixar o Irã.

Ao mesmo tempo em que o filme mostra uma caótica família em uma viagem misteriosa pelo interior do Irã, que já tem sua paisagem amplamente conhecida pelo fãs de Road Movies devido à ampla cadeia de montanhas e formações rochosas que caracterizam esse peculiar e gigante país do Oriente Médio, o longa também se mostra como um escape e como uma tentativa de liberdade para o próprio Panah, que agora começa sua carreira de diretor e que certamente quer alçar voos maiores de que seu pai.

Vídeo: teaser internacional de “Hit the Road”

O filme é uma amostra da capacidade de seleção e apostas certeiras da curadoria e equipe da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que chega agora, no dia 21 de Outubro, com a sua 45ªEdição. Este ano a MostraSP possui 10 filmes iranianos e certamente “Pegando a estrada” é um dos destaques que vai ter bastante concorrência para ser assistido.

O longa narra a história de uma família do Irã composta por um pai que aparenta estar com a perna quebrada, mas será que realmente está? Uma mãe que carrega o pesado fardo linear e tríplice entre a dor, a esperança e a resiliência, enquanto tenta sorrir e segurar lágrimas, um filho mais novo, interpretado por Rayan Sarlak, que aos seis anos de idade se apresenta ao cinema iraniano como uma verdadeira força da natureza e com grande atuação e um filho mais velho, esse misterioso a angustiado a todo momento; os quatro são ainda acompanhados na viagem, de carro alugado, por um cachorro que está no porta malas muito doente.

O filme vai entregando a história de forma devagar em que quase tudo é motivo de fazer parar a viagem ou então de apreensão e suspense, não sabemos praticamente nada e nada é contado, apenas vamos observando essa caótica família em que todos se provocam, brincam e gritam.

É como se fossemos convidados a fazer parte da viagem e embarcar na aventura para entender o que se passa. O menino mais novo é inquieto e imperativo, curioso e desconfiado e fornece junto ao pai ricos diálogos sobre cultura pop que servem de metáfora a repressão iraniana, é inclusive nessa rica relação de confiança, em que a fantasia tem que existir para enganar a criança do verdadeiro significado da viagem e esta não entregar a família toda, que vejo um dos pontos altos do filme, inclusive comparando com a relação entre pai e filho do clássico e mágico “A Vida é bela” (1997) do cinema italiano.

Personagem mirim de Hit the Road cantando no teto solar do carro

Nas cenas quase finais de ambos os filmes, “Pegando a estrada” e “A Vida é bela” é quase impossível não traçar comparações em que a imagem triunfante de uma criança representa a euforia de se imaginar e sonhar com um possível mundo melhor, fantasia essa que em ambos os filmes somos levados a invariavelmente chorar e sorrir o tempo todo, as vezes até mesmo na mesma cena, tamanha montanha russa de sentimentos que representam.

A trilha sonora de Payman Yazdanian completa o roteiro de Panah Panahi de forma magistral, sendo a escolha das músicas, de acordo com o diretor e roteirista, feita de forma que todas fossem muito populares no Irã, mas que antecedessem a revolução islâmica, é uma expressão de libertação e nostalgia a tempos que dificilmente voltarão. A fotografia de Amin Jafari também é parte fundamental desse processo, em que os tempos de silêncio e distanciamento do foco servem de alivio e que mostra não fazer uso de estereótipos baratos do cinema de drama, em que a tragédia alheia serve de entretenimento.

A produção do filme composta inclusive por seu pai, Jafar Panahi, ele próprio Panah Panahi e Mastaneh Mohajer, conta com elementos originais, em que  até mesmo por um breve momento é usado CGI, em que é abandonando o realismo completamente para um momento mágico de pura fantasia.

A relação tríade entre pai, mãe e filho mais velho é outro ponto alto do filme. A mãe, enquanto tenta dar conta da criança mais nova que a todo momento tenta saber o que se passa, se segura entre risos e lágrimas para garantir que o filho mais velho não desista da viagem e pai e filho mais velho se encontram em um embate silencioso de gerações, em que o filho misterioso e silencioso tenta se rebelar e tomar o seu futuro em suas próprias mãos.

Foto: divulgação de Hit the Road (Pegando a estrada).

É na coragem dessa família, que sem a prepotência de querer ser um filme de drama sobre imigrantes e refugiados, que podemos enxergar um pouco a incrível capacidade que o ser humano carrega de poder e querer sonhar, mesmo com as mais diversas adversidades que enfrentamos.

Filme visto na 45ªMostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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