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Tárcis discute “Todo Mundo Ama o Sol”, seu 4º projeto

Novo álbum do integrante do coletivo Covil da Bruxa homenageia a riqueza da música brasileira

A Pista conversou mais uma vez com o rapper e beatmaker Tárcis. O MC carioca já havia sido entrevistado por nós no começo de 2021, leia aqui.

Tárcis é membro do coletivo Covil da Bruxa (criado no RJ em 2016) ao lado de outros nomes como Leall, VND, pumapjl, TOKIODK e OG BRITTO. Quase todos os integrantes vem de lançamentos recentes: Leall, VND e OG Britto também soltaram projetos em 2021 — “Esculpido a Machado“, “Eu Também Sou um Anjo” (o próprio Tárcis participou dos dois) e “Nova Febre“, respectivamente. Sem abrir mão das origens, eles bebem de diversas influências musicais e tendências em alta no mundo a fora como o grime, o drill e o house (no caso do Tárcis predominantemente).

Conversamos com o Tárcis sobre seu mais novo álbum “Todo Mundo Ama o Sol“, a riqueza da música brasileira e sobre o tipo de legado que ele planeja deixar no futuro. No total, Tárcis tem quatro projetos lançados até agora: “Maitê: Misticidades, Amores, Inspirações, teorias e expirações” (2018), “Canções Que Fiz para Você” (2019), “CyberYorubá 10062” (2020)  e o mais recente “Todo Mundo Ama o Sol” (2021).

Todo Mundo Ama o Sol

Todo Mundo Ama o Sol” foi lançado oficialmente em todas as plataformas no dia 20 de agosto. O projeto tem 10 faixas no total e conta com as participações de Bivolt, VND, pumapjl, Bia D’Oxum, Indy Naíse e Luna. Todos mandaram muito bem. Já o título referencia “Everybody Loves The Sunshine” de Roy Ayers, a música e o álbum com o mesmo nome. O consagrado artista norte-americano também foi sampleado em duas músicas do disco: a faixa-título “Todo Mundo Ama o Sol” e na ótima “Beira-Mar” (com participação de VND e pumapjl).

O novo álbum de Tárcis tem uma identidade distintamente brasileira: a capa remete ao clássico Alegria, Alegria! Vol. 2 de Wilson Simonal, as melodias e as letras parece terem sido feitas na medida pra se ouvir debaixo daquele sol que todo brasileiro conhece e anseia frequentemente no verão. Todas as produções foram assinadas pelo Tárcis, com exceção de “Gato Preto” (com participação de Bivolt) que foi produzida pelo Gabriel Luna. Essa escolha deu uma coesão interna muito interessante ao trabalho. Ouça agora na sua plataforma preferida se ainda não escutou e confira abaixo a entrevista completa com o rapper.

Capa de "Todo Mundo Ama o Sol" - Tárcis
Tárcis na capa de “Todo Mundo Ama o Sol” (Foto de @ilovemyanalog, com direção de arte da Beatriz Honorato, @bigga_ch e edição de @voadorcaroco)

EntrevistaTárcis

A Pista: Quando nasceu a sua concepção de “Todo Mundo Ama o Sol” e como você definiu a sonoridade do disco?

Tárcis: Eu estava tomando um sol de manhã como sempre faço, aí comecei a refletir sobre a importância do sol para nossa vida e como carioca demonstrar o quanto sou apaixonado pelo astro rei. A sonoridade dele foi acontecendo no decorrer da produção. Eu não estabeleci um estilo definido, apenas pensei no conceito de dia e noite. O disco ganhou forma de um jeito natural como se fosse um pão fermentado e chegando a um produto final, depois foi só organizar as faixas e lançar.

A Pista: Qual foi a diferença do processo entre “CyberYorubá 10062” e o “Todo Mundo Ama o Sol”?  O que o motivou a fazer essa mudança de identidade e sonoridade?

Tárcis: Como eu disse na resposta acima eu sempre deixo a música me levar pra ser o mais sincero e original. Eu não gosto muito de ficar preso a um gênero ou estilo. Acho que a música tem que sair do nosso coração, é algo que a alma quem dita o ritmo e eu não mudei minha identidade, também faz parte da minha identidade.

A Pista: Roy Ayers e seu “Everybody Loves The Sunshine” foi uma das inspirações para “Todo Mundo Ama o Sol”. Você o sampleou na faixa-título do álbum e o nome do projeto também faz referência a ele. Quais foram as outras influências musicais que você teve durante a criação do disco?

Tárcis: O Roy aparece em duas na verdade, o sample de “Beira-Mar” também é dele. Eu amo o Roy, a forma que ele faz música e a forma que a arte dele me toca é indescritível. Eu estudei muito o movimento do house, ainda estudo e bebi muito dessa fonte para produzir e escrever sem contar o samba que eu nem preciso dizer que geral já sabe.

A Pista: O sample que você usou em “Fim de Tarde” também foi utilizado por outras figuras do rap americano como Isaiah Rashad, Mac Miller, J. Cole e também do rap nacional como o BK e o grupo MOB79. Você concorda com a visão de que a música é um processo criativo contínuo e que não tem a ver só com um único artista?

Tárcis: Exatamente, a escolha do sample foi exatamente por isso pra provar que é possível usar o mesmo sample e conseguir sonoridades diferentes e quando a pessoa for escutar o som dos caras lembrar do meu e vice versa.

A Pista: A faixa “Gato Preto” com a participação da Bivolt foi uma das nossas favoritas do disco. Como foi a experiência de trabalhar com ela e como surgiu o contato entre vocês dois?

Tárcis: Foi engraçado, porque eu tava cheio de receio de chamar ela pro feat e tal. Porra, é a Bivolt. Daí a gente [estava] jogando Among e eu falei com ela da gente fazer uma juntos. Eu já tava com essa pronta, quem ia entrar era o VND. Mandei pra ela e ela se amarrou, passou um tempo eu colei em São Paulo e a gente gravou junto. Foi muito maneiro, eu fiquei hipnotizado. Fiquei uns 3 meses escutando direto a faixa.

A Pista: Com exceção da música “Gato Preto” que foi produzida pelo Gabriel Luna, todas as outras faixas de “Todo Mundo Ama o Sol” foram produzidas por você. Em contrapartida, seu projeto anterior “CyberYorubá” contou majoritariamente com produções do Luna. Por que fez essa escolha? Você estabeleceu desde o começo que nesse novo álbum tinha que rimar só sobre suas próprias bases?

Tárcis: A escolha das batidas foi aleatória. Eu tinha até chamado outros beatmakers para o projeto, só que a música nos entrega caminhos diferentes daqueles que a gente planeja. Acabou que os caras não conseguiram entregar as batidas no prazo. Outras faixas foram porque os feats não tinham agenda também, mas não foi algo premeditado de início.

A Pista: Ao longo do álbum, alguns temas como esperança, progresso para o povo negro, amor próprio e confiança são os fios condutores das histórias das faixas. Qual foi a intenção de construir um projeto com bases nestes temas?

Tárcis: A gente precisa trazer novas narrativas pro rap nacional, tá muito batido esse “papo de bandido”. A gente já sofre violência demais na vida, acho que mudar essa chave de quem ouve é importante, trazer novas perspectivas outras formas de pensar música negra. Não me oponho a quem faz, só acho que pra mim não combina esse tema. Como diz o samba: “se eu for falar de tristeza, meu tempo não dá”.

A Pista: A capa de “Todo Mundo Ama o Sol” remete à capa de Alegria, Alegria! Vol. 2”, clássico disco do grande Wilson Simonal. Seus projetos anteriores tem bastante influência da música brasileira, mas esse novo álbum parece ter uma sonoridade distintamente brasileira. Parte da sua proposta foi homenagear a riqueza da música brasileira?

Tárcis: Foi ser o mais brasileiro possível e ainda sim saber que iam me comparar com os gringos. Cara, tá tudo aqui no Brasil. Nossa música é rica demais pra gente sempre buscar a influência de fora. Eu quero cada vez mais valorizar nossa raiz, foi assim que eu aprendi a viver e fazer arte.

A Pista: Você acha que mudou muito ou amadureceu como pessoa e/ou artista de um projeto para o outro?

Tárcis: A mudança é constante, no próximo projeto eu já vou ser um novo Tárcis e assim vai. Eu vivo sempre tentando encontrar a minha melhor versão, acho que a gente precisa sempre buscar o 200% e se superar.

A Pista: Você fala em construir um legado na letra de “Astro Rei”. Que tipo de legado você imagina deixar no futuro e para quem?

Tárcis: Eu falo para os meus mais novos e até meus mais velhos: a gente vem na Terra pra deixar uma marca, passar em vão não é meu objetivo. Um legado não precisa ser pré estabelecido [como] “ah, quero ser o maior rapper do brasil”. Quero ser o cara que as pessoas olhem e digam: eu posso ser como ele. Quero que minhas filhas tenham orgulho do nosso nome — esse é o legado que eu falo.

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